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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Senso estético

Talvez nenhum outro povo do mundo possui tanto senso estético quanto os japoneses, uma extraordinária habilidade de apreciação, que parece quase um passatempo nacional.
Desde a antiguidade, esta habilidade se desenvolve através de exercícios estéticos, devotados, grande parte à natureza, e acabou sendo refinada pela introdução do pensamento zen, do culto da simplicidade, permeando assim toda a vida.

Em que outra cultura as pessoas constroem jardins para o deleite da visão, ou dedicam-se na elaboração de um arranjo de flores, retirando o máximo, mesmo do preparo de um chá, disciplinando-se física e mentalmente, em uma busca pela essência, ao ponto de tornar-se uma verdadeira arte?

Noite de lua em Atami

A única noite em Atami guardava uma surpresa.

Uma bela e perfeita lua cheia sobre o mar, visão digna de cartão postal.


Subi ao terraço do hotel para fotografar e lá estava um funcionário do ryokan, também munido de câmera. Me viu chegar, apontou para a lua pendurada exatamente sobre uma pequena ilha e seu farol e disse: ‘Birutiforo’



Atame é uma jóia delicada, realmente ‘birutiforo’.

Deuses para todas as ocasiões

Fico pensando na dificuldade de louvar tantos deuses e divindades, num país com milhares, e alguns trabalham, eu diria, em grupo. E se dividem em níveis de hierarquia, alto, médio e baixo escalão e infinitas divisões intermediárias.

No 'ministério' mais alto, estão os Shichifukujin, (shichi = sete; fuku = sorte e jin = deuses).
São eles, Ebisu (pesca, agricultura e negócios), a deusa Benzaiten (das águas, artes e da riqueza material), Daikokuten (da fortuna, do lar e da cozinha), Fukurokuju (longevidade e juventude), Bishamonten (Guerra), Kisshoten (mais longevidade) e Hotei Oshoo (Felicidade).


Não me surpreendeu portanto, enquanto perambulava pelo ryokan, encontrar em uma das copas, que serviam os quartos, uma pequena imagem de Sanbo Kojin, no sincretismo xinto-budista, o Deus do fogão, tem três cabeças e seis braços.


Assim dá pra fritar o peixe, olhar o gato e ler um livro de culinária.

How to enjoy bath

Como nãopodia deixar de ser, um pequeno manualzinho esperava dentro do armário.


Ryokan

Passei a noite em um ryokan (Ikeda Ryokan), um hotel típico japonês.
Hosperdar-se num ryokan, nos coloca mais em contato com um Japão que parece estar desaparecendo. É uma rápida viagem ao passado.

Fomos levados por senhoras, empregadas do hotel, que mostraram onde ficava o yucata, como usá-lo, etc. Deixaram ao chão alguns zabuton (almofadas para sentar)
É um costume que elas lhe ensinem, e ajudem, estão ali para isso mesmo e seria desrespeitoso dispensá-las.

Entrando no quarto existe um pequeno hall (geikan) onde se deve deixar os sapatos.





Talvez pela atmosfera criada pelo material empregado, adentrar no quarto em si, é uma experiência por si só diferente de tudo.

A escolha do material, evoca harmonia com a natureza - pedra, madeira, bambu, papel... televisão colorida.


Tatame (piso de esteira), futon (cama ‘nu chon’), yukata (quimono leve), paredes de washi (papel de arroz), byobo (biombo decorado) e um banheiro claustrofóbico, onde minhas pernas tinham que ficar para fora.


Quando voltaram, um pouco tempo depois, trouxeram a mesinha de chá.



De maneira reservada, quase como fantasmas de antigos empregados, estas mulheres entravam e saiam quase sem serem percebidas.
Bem mais tarde, quando sai do banho, o quarto já havia sido preparado com o futon para dormir.

Atami

Cidade pequena (40 mil habitantes), fica encravada entre as montanhas e o oceano Pacífico (golfo de Sagami).
Atami quer dizer em japonês, ‘mar quente’.

Quarenta mil anos atrás havia um vulcão, que explodiu, foi tragado pelo mar e deixou a cratera onde hoje existe a cidade.
Muitas das construções em Atami ficam na encosta dos morros, lembrando neste aspecto Beppu.

Durante o grande terremoto de Kanto de 1923, uma onda de 40 pés de altura varreu a cidade, matando 10% da população.

À direita do hotel, a orla iluminada lembrava uma tímida Copacabana dos anos 50.

Não é a toa que no passado a cidade era o ponto favorito para os casais em lua de mel, que vinham procurando aconchego, beleza e romantismo.


Fica em Atami também uma das escolas de gueixa mais tradicionais.
Parte da carga nostálgica, eu penso.

Chegando a Atami





Mapa de Atami

De passagem por Nagoya

No caminho de Hokaido, o trem para em Nagoya e Hamamatsu, duas cidades conhecidas pela quantidade de brasileiros vivendo ali.
A primeira impressão não foi das melhores contudo.
Muitas fábricas, chaminés, e conseqüentemente poluição.
Lembrou Cubatão.

Uma livraria finalmente

Na estação de trem de Okayama finalmente encontrei uma livraria. Só deu para folhear algumas revistas, pois a hora de embarque estava próxima e precisava ainda comprar o almoço (obento), etc.



Ponte Seto

Bem cedo fomos de ônibus conhecer a fabulosa ponte SETO Ohashi.

É realmente uma obra grandiosa, dessas de tirar o fôlego ! 28 ilhas interligadas !

A história do projeto porém tem um inicio triste.
Nos anos 50, quando se ainda usava os barcos para se fazer a travessia entre as ilhas, durante um forte nevoeiro, duas embarcações colidiram, e quase 200 pessoas morreram afogadas.
A maior parte das vitimas eram crianças.
No Japão se tem o costume de realizar excursões escolares, e um dos barcos estava transportando alunos que iriam visitar uma das ilhas.
As fotos da tragédia, estamparam os jornais o que acabou por causar uma comoção nacional.
Por mais de dez anos se pensou como poderiam resolver a questão, que dependia de uma tecnologia ainda não disponível na época.



A obra só começou a sair do papel em 1973 e precisou de mais 10 anos até chegar ao estágio atual.
O maior vão entre ilhas, alcança quase um quilômetro! Apesar de não se tratar da maior ponte já construída (passa um pouco dos dez quilômetros), é impressionante pela engenhosidade e pela dificuldade vencida.


Descemos em uma das ilhas (Yoshima) e embarcamos numa lancha, para poder ter um vista panorâmica.







Pessoas do mundo todo vem ao Japão apenas para vê-la. Conheci dois brasileiros de Mogi Mirim que estavam ali com este objetivo. A parte inferior da ponte serve também para o transporte ferroviário.





Dali voltamos à Okayama, para a estação e novamente de shinkansen, 590 km até Hokaido, três horas e pouco de viagem, baldeação, mais 40 minutos até a cidade de Atami, desta vez em um expresso.