Eram quatro e meia da tarde, quando alcançamos os limites da cidade cinzenta.
Trânsito intenso e engarrafamento.
Nada de muito especial, para quem está habituado a São Paulo, ou qualquer outra mega-cidade industrial.
Nosso hotel (New Otani) é um dos mais luxuosos, fica bem próximo ao palácio imperial, moradia dos imperadores, uma área muito verde e bem protegida.
Nesta primeira tarde-noite em Tóquio, deixei os pertences no quarto e munido de mapa, fui explorar o hotel, na verdade, um complexo de três grandes prédios, com quadras esportivas, jardins internos, 27 restaurantes internacionais, doi shoppings e todo o luxo e conforto.
Achei um AM-PM e fiz 'a feira' para os três dias seguintes.
Estou no décimo nono andar, a vista da janela me faz sentir-me em casa.
Arranha-céus modernos, vidro e aço... e poluição.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Chegando em Tóquio
O Fujiyama
Da base da montanha nada se via.
Visitamos o museu, assistimos um vídeo sobre a formação do vulcão, que na verdade eram três, e esperamos que com o passar dos minutos a situação mudasse. Mas nem isso.

Como programado, subimos no ônibus em direção à quinta estação (2.300 metros), a maior e a última estação que se consegue ir de carro, utilizando a estrada sinuosa.
A cada estação (são dez, sendo a última na beirada da cratera, à 3.770 metros), íamos parando, esperançosos que um milagre revelasse o topo da montanha.
Estávamos acima da maioria das nuvens, o ponto mais alto do Japão.
O vulcão tornou-se inativo a partir de 1700, era considerado tão sagrado, que a escalada só era permitida aos sacerdotes. A subida de mulheres só passou a ser permitida no ano de 1872.
Na quinta estação, trocentos ônibus de turistas como o nosso, e uma multidão, alguns munidos de bastão para escaladas e vestidos de branco, gente de toda parte do mundo, principalmente chineses.
Dali ao topo, pouco mais de um quilômetro de subida, se levava de seis a doze horas, dependendo da capacidade física e da trilha escolhida.
Nossa guia brasileira se afastou, dizendo que iria orar em um templo perto dali, pedindo ao deus dos ventos para levar as nuvens embora.
Fiquei admirando um tipo de ciprestes, que só crescem ali, pois daquela altitude para cima, não há vegetação praticamente.
Dez minutos depois ouviu-se um clamor geral, me virei e lá estava o topo do Fuji, maravilhoso, bem diferente do que vemos normalmente em cartão postal.
Como era verão, quase não havia neve. Segundo me disseram, a pouca neve que persistia era um fenômeno que estava sendo estudado pelos cientistas, pois não era normal se encontrar neve após o mês de Maio. 

A guia, eximindo-se de sua ‘participação’, disse que a gente tinha sorte, pois em outra épocas do ano, muitos turistas acabam frustrados.


Ficamos todos emocionados.
Entramos no ônibus para seguir viagem em direção a Tóquio (110 km dali) satisfeitos, como se a viagem estivesse coroada ali e tudo mais que viesse a acontecer, fosse um extra.

Labels: Dia 18, Monte Fuji
Hakone
Entramos na região de Hakone com péssimos pressentimentos.
A expectativa de poder ver o monte Fuji, cartão postal máximo da nossa viagem, lembrança sem igual e que levaríamos pelo resto de nossas vidas, parece ter ido por água abaixo.
Chuva e nuvens baixas e escuras. E nenhum sinal do monte Fuji.
Como disse alguém, era como ir a Roma e não vaiar o Papa.
Hakone, como Atami, é repleta de hortênsias de todas as cores, e nem estamos na primavera.
Canteiros cheios de hortênsias acompanham a estrada sinuosa.
Okyaku-san (honorável cliente)
Duas experiências que me fizeram ver a importância extrema que é dada, quanto à relacão entre vendedor e cliente.
Precisávamos comprar uma refeição para ser feita no ônibus, pois seguiríamos sem perder tempo para outra cidade e portanto paramos num kombini de estrada, acho que um 7-eleven.
Depois de invadirmos o lugar como gafanhotos famintos e termos esvaziados as prateleiras, voltamos com nossas sacolas abarrotadas para o ônibus, que esperava com motor ligado.
Só ao me sentar, percebi pela janela que TODOS os funcionários do mercado, estavam ao lado de lado de fora, na calçada, acenando e se curvando e agradecendo por termos escolhido fazer as compras ali.
E ficaram para trás acenando, depois que o ônibus já ia longe.
Fiquei sensibilizado com a cena.
Outra foi ao longo da viagem, perceber que havia um ritual, que nunca me foi explicado e que nunca vi dissecado em nenhum site sobre costumes japoneses que li.
Um ritual sobre como se deve pagar pela mercadoria.
Praticamente a coisa se dá da seguinte forma:
Você leva ao caixa o produto que deseja comprar.
O atendente na caixa agradece e registra o produto e fala alto o valor a ser pago (imposto incluso).
Você então deposita o valor em uma bandejinha, normalmente de plástico ou laca, que fica ao lado do caixa, sobre o balcão.
Note que você não entrega o dinheiro, mas coloca na bandeja.
E se por exemplo, está faltando dinheiro, o atendente aguarda.
Ele só vai pegar o dinheiro da bandeja quando você der por entender que todo o valor se encontra nela.
Depois disso, o atendente fala em voz alta o valor que você entregou e faz o registro.
Em seguida, se houver troco, ele repete em voz alta o valor do troco e o deposita na mesma bandeja.
Só ao terminar de por todo o troco, você deve pegá-lo.
Também percebi que este ritual não se dá sempre da mesma maneira, pois no começo eu não havia me tocado da bandeja e entregava o dinheiro diretamente.
Existe uma imennnnnnsa diferença, que para nós, como sempre, passa desapercebida, em como você entrega ou pega, o que quer que seja.
Isso depois ficou visível na expressão do atendente.
Usar as duas mãos é o esperado, nunca uma só.
E ao devolver o troco, o atendente devolvia primeiro as notas (com as duas mãos) e depois as moedas; sendo que primeiro ele colocava uma das mãos por baixo da sua, para garantir que a moeda quando solta, não vai cair, e gentilmente então, ele com a outra mão, solta as moedas, quase que carinhosamente.
Uau.
Atendimento à moda japonesa - primeiras lições
Algo que chama a atenção de qualquer pessoa que viaja ao Japão, é a forma que você é atendido. Existe um evidente preparo, um ritual que deve ser travado entre vendedor e comprador, se não entendido, ao menos apreciado.
Por parte do vendedor, uma atitude de gratidão por você estar demonstrando interesse em adquirir o que quer que seja, e quem quer que você seja, ou qualquer que seja o valor do produto.
Não importando se num grande shopping, num mercado ou numa banca de obentos na estação de trem, a forma que você será tratado é tão atenciosa e respeitosa, que se torna uma experiência arrebatadora e você se sente muito, mas muito bem, e portanto tentado a voltar a comprar mais vezes.
Eu sei que é bastante profissional e aquele tratamento é o esperado, desde as mesuras e cumprimentos. E eles agradecem, agradecem e agradecem, enquanto você não retribuir o agradecimento (ou ir embora) parece um loop sem fim.
Não apenas sendo solícito, mas interessado em te ATENDER, assim em maiúsculo mesmo, como eu disse, independente de quem você é, ou o que esteja comprando um carro ou uma maçã.
Impossível não ficar tocado por esta atenção toda.
Mesmo sendo um sujeito como eu, que não acredita em sorriso de aeromoça (a frase não é minha, mas do Marcelo Paiva), inevitável não nos lembrarmos a contragosto que, no Brasil, você muitas vezes se sente como se o vendedor estivesse fazendo um favor em aceitar seu dinheiro.
Lago Ashi
Antes de seguir para o Monte Fuji, fizemos um passeio de barco no tranqüilo e majestoso lago Ashi, situado a 700 metros acima do nível do mar e que nos dias de sol, oferece uma vista magnífica do Monte Fuji.
Não foi o caso daquele dia, pois mostrou-se misterioso como uma gueixa, encobrindo suas belezas com um persistente nevoeiro.



Por ele também navegavam esdrúxulas réplicas de antigas caravelas e galeões enfeitados.




É notável a preservação das pequenas ilhas de mata fechada.


O ovo de 50 anos
Seguindo de ônibus por Owaku-dani (Vale Fervente), paramos para ver uma de suas fendas vulcânicas, cujas águas também expelem vapores sulfurosos.
O cheiro de enxofre é forte.
Lá existe um teleférico que carrega uma cesta de ovos direto para dentro da fonte em ebulição.
Diz-se que quem comer um ovo, soma 50 anos à mais de vida! (E algumas horas de mal-estar.)
Omiya e Kanichi
Na praia de Atami, vimos o monumento que presta homenagem a Omiya e Kanichi, protagonistas do romance Konjiki yasha (A Feiticeira Dourada), que durante os anos em que foi publicado (1897–1902), em capítulos no jornal Yomiuri Shinbun, fez enorme sucesso popular e arrebatou milhares de leitores.
Trata-se da história de amor entre um jovem rapaz orfão Kanichi e uma moça chamada Omiya. Apesar de se conhecerem desde pequenos, apesar de estarem prometidos um ao outro, a beleza de Omiya acaba despertando o interesse de um milionário, que a presenteia com pérolas e com a conveniência dos pais da moça, acaba por casar-se com ela.
Kanichi desiludido, perde-se no mundo do crime e acaba tornando-se um grande agiota, envolvido com uma mulher perigosa e igualmente cruel (a feiticeira do título).
Na passagem do romance, simbolizada pelo monumento, Omyia abandonada pelo marido, procura Kanichi, que aproveita-se para vingar-se, desprezando-a.
'Esta lua cheia que nos viu juntos por tantas vezes, voltara a nos ver novamente, mas nunca mais juntos.'
O autor, Ozaki Koyo, resgatou a elegância da linguagem literária de romancistas do passado, mas com elementos da linguagem e dos novos valores da era Meiji.
Tais como as peças de Kabuki, onde há a valorização do amor suicida, a temática da escola literária fundada por Koyo e seus seguidores, valoriza o amor incondicional e sem esperança e critica o modo de vida dos poderosos surgidos com a revolução.
O romance foi adaptado para o cinema em 1956, com o título em inglês, Golden Demon.
Saindo de Atami ou fugindo de um tufão
Pela manhã bem cedo nos preparamos para deixar Atami de ônibus, em direção a Hakone.
O tempo mudou drasticamente, amanheceu escuro, cinzento e chuviscando.
No lobby do ryokan, enquanto fechávamos a conta, soube pela guia brasileira que a mudança climática se dava pela aproximação de um tufão.
Para a surpresa dela, fiquei exultante.
Me expliquei dizendo que vir ao Japão e não sentir um terremoto ou ver um tufão, seria decepcionante e que devia fazer parte do roteiro.
Pela primeira vez na viagem, vi Seiko-san rir de verdade, porém, pediu-me delicadamente,
que eu não contasse para ninguém, pois temia assustar o grupo.
O primeiro tufão a gente não esquece...



