
Impossível ir ao Japão e na volta não ouvir a pergunta: 'E as gueixas?'
O ocidental alimenta uma idéia errada do papel da gueixa, muito por conta dos estereótipos do cinema.
Antigamente, (põe antigamente nisso) lá pelo shogunato Tokugawa (1603-1868), algumas mulheres eram treinadas desde cedo, para entreter os homens importantes, através do canto, da dança, da habilidade com determinado instrumento musical, ou apenas como uma companhia agradável à mesa, durante uma refeição ou celebração.
Para a sociedade, era uma prova de sua sofisticação, o auge.
Para as meninas, era uma chance de ascender, não só financeiramente.
Estas mulheres, chamadas gueixas ( 'pessoa das artes'), com o tempo assumiram um papel maior na vida econômica e política do reino.
Passou-se a permitir então, que qualquer pessoa, independente da seu status, pudesse ter este prazer, dai a proliferação dos distritos de gueixas em cada cidade.
Tóquio chegou a ter mais de uma dúzia deles, verdadeiros bairros, com restaurantes e casas de show e bares, casas de banho e de massagem.
É claro que com o passar do tempo, mesmo os japoneses começaram a desvirtuar a idéia original, pois no antigo sistema, a gueixa não ia para a cama com os clientes.
(Para um estrangeiro, a colocação do laço do quimono diz tudo, já que o laço feito à frente, caracteriza uma prostituta vestida como uma gueixa.)
Aos poucos também as escolas de gueixas (okiya), verdadeiros quartéis, começaram a desaparecer. Aquelas que ainda existem, se limitam ao ensino da profissão, pois uma gueixa de verdade (com licença para ser gueixa) atualmente não se difere de qualquer outra profissão.
Escolhem este trabalho voluntariamente e se aposentam quando querem.
Além disso, existe a exploração da imagem da gueixa, como aquelas que atendem à domicilio (instant geisha), através de agências de contato. Basta pegar o telefone:
Um jantar com os amigos do trabalho... Precisa de duas gueixas? Estamos enviando. Com notinha ou sem ?
Outra diferença é que um gueixa licenciada, trabalha até os 60, 70 anos, enquanto que uma 'gueixa instantânea', com seus 20 anos de idade, vende além da ilusão, sua juventude.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Gueixa moderna
Metade - não inteiro

Conversava por ocasião de um café da manhã típico japonês, com uma senhorinha (obachan), que falava um pouco de português, sobre a variedade de elementos servidos, que eu praticamente desconhecia.
Já havia me chamado a atenção, que dentro do copo de chá, um chá bem ralo, que ela chamou de ‘chá chinês’, havia um pedacinho de casca de madeira, menor que uma unha do dedo mindinho e uma finíssima e quase transparente metade de uma fatia de limão.
Por que metade? Pois foi o que eu perguntei.
Sua resposta econômica, levava em consideração eu ser um estrangeiro, e resignada por compreender que eu não sabia o básico, foi mais ou menos assim:
‘Se inteira seria demais, se não tivesse, faria falta.’
Em busca do Japão perdido
Depois de algum tempo vendo pessoas usando ternos e roupas da moda, comendo no MacDonalds ou penduradas ao celular, zumbizando por uma farmácia Smile Life, a gente se pergunta se aquele Japão exótico e milenar ainda existe.
Acho que sim, está disfarçado debaixo de um casaco adidas, chocalhando no metrô, mas existe sim.
Algumas pistas, que nos conduzem a este Japão estão por toda parte.
Você está na rua e um bando de garotos com uniformes de baseball passa correndo por você, e então surgido do nada, você ouve um koto (cítara japonesa), fazer a ponte entre o presente e o passado.
A arte da sutileza

Compreendo e aceito que, como um ocidental, jamais compreenderei tudo que se passa à minha volta.
Como uma linguagem, na qual sou analfabeto e que raramente dá para perceber o erro cometido.
Quem começa a reparar nos nuances dos sabores encontrados numa sopa de miso, ainda está longe de entender a sutileza que se aplica a praticamente tudo.
Um gesto, uma expressão, por menor que seja, por mais desprezível que possa parecer.
Minha sensação é que estou sempre usando uma marreta para prender uma tachinha, numa peça delicada, e que diante dos pedaços partidos, não compreendo o que aconteceu.
Separei um trecho de um livro, chamado ‘Pictures from the water trade’.
(‘Water Trade’, é a tradução inglesa de 'Mizu Shobai' (Negócio d’água) , uma forma vulgar de chamar a vida noturna japonesa, com todos seus prazeres.)
“Construir uma pergunta em japonês é uma arte, um instrumento a ser manuseado com delicadeza e cuidado. Uma pergunta direta fora do momento, pode se mostrar bastante destrutiva, meramente em virtude de sua forma. Perguntas diretas (com exceções daquelas na vida profissional e nos negócios) não são apreciadas. Uma pergunta típica se parece mais com uma isca, que em um tribunal de justiça seria desqualificada como sugestiva, cheia de armadilhas, e de fato, parece com tudo, menos uma pergunta. A pessoa para quem foi feita a pergunta, poderia assim ser processada, pela grave acusação de compactuar com a pessoa que fez a pergunta; sendo assim, quase um acessório à resposta, no caso, não o vilão principal. Teria meramente conspirado ao responder.”
John David Morley, Pictures from the Water Trade
Saindo de Osaka
Karasu (corvo)
Santuário Xintoísta Kasuga
Perto dali, numa área de 526 hectares que abriga a maioria dos Templos de Nara, está o santuário Kasuga.
Logo na entrada, vejo uma cena que se repetiria em outros santuários, os tambores de saquê ofertados pelos produtores locais. Retirado a parte que é consumida pelos monges, o excedente é vendido e o dinheiro reverte para a manutenção do santuário.







Notem a quantidade de 'lanternas'.
Diz-se que são 8 milhões de deuses xintoístas e que existe ali, uma lanterna para cada um.
Não contei.




Binzuru - O discípulo expulso

Do lado de fora do templo está a estátua de madeira de Binzuru, um dos 16 discípulos de Buda.
Conta a lenda que Binzuru não era propriamente 'obediante' ao seu mestre e por castigo a estátura permanece do lado de fora do templo. Binzuru acabou se tornando popular entre aqueles que vinham de todo o país prestar homenagens a Buda e acabou incorporando a fama de que, se esfregando uma parte da estátua, correpondente ao local onde sofremos algum tipo de mal, Binzuru concede a cura.
Templo Todai-ji
A casa do grande Buda Vairocana (ou Daibutsu), o grande templo do leste é um complexo arquitetônico budista.
O budismo chegou no Japão no século 7 d.c., trazido por monges coreanos e que foram responsáveis por introduzí-lo junto à corte japonesa.
Sua apreciação pelos círculos mais elevados do império favoreceu seu crescimento.
Em 685, o então imperador Temmu ordenou que cada família tivesse um altar budista.
Seu descendente príncipe Shotuku foi além, decretando que cada província construísse um templo.
O Japão na época era assolado por doenças, pragas e fome e o desejo de se agradar aos deuses foi fundamental para que o grande templo, o maior do país então, fosse construído.
Completado em 751, era uma das maravilhas do mundo (ainda é).
É a maior 'casa' de madeira do mundo.








O complexo original contava com dois pagodes de 100 metros, em seu tempo apenas menores que as pirâmides do Egito. Ambas foram destruídas por terremotos.
A estátua principal teve que ser refeita diversas vezes por diversos motivos, de incêndios a terremotos.
As mãos atuais foram refeitas no período Momoyama (1568 a 1615) e a cabeça refeita no período Edo (1615-1867).



De forma irônica, a construção de templos pelo país também fortaleceu um poder que rivalizaria com o do trono japonês, por este motivo, a corte imperial deixou Nara e mudou-se para a distante Quioto, por onde permaneceria por mil anos até a restauração Meiji.
Nara teve então seu esplendor apagado pela nova capital.
O templo Todaiji é sede da escola Kegon de Budismo e patrimônio da humanidade pela Unesco.
Ao longo do tempo, outros monumentos se somaram ao templo, como o grande portão (Nandaimon), erguido em 1194.
No portão, as figuras dançarinas de Nio, tem 28 pés de altura, são guardiões da entrada do templo. Os jardins se juntaram ao complexo no século 16.
Uma das colunas de sustentação do grande hall possui um buraco junto a base, que diz-se, ser do tamanho de uma das narinas do Buda Daibutsu.
A lenda diz que aquele que passar pelo buraco será abençoado na sua próxima vida.
Ví várias pessoas presas ao tentar passar e precisando serem puxados para 'desentalar'.
É fácil encontrar este local, pelo som das risadas dos expectadores quebrando o silêncio reverencial .
A construção do templo custou tão caro para a economia da época, que afundou o reino nos anos seguintes.
Para se ter uma idéia, todo o bronze disponível naquele tempo foi usado para confecção da estátua.
O Buda Vairocana ou Daibutsu e suas medidas
Altura : 14.98 metros
Face : 5.33 metros
Olhos : 1.02 metros
Nariz : 0.5 metros
Orelhas : 2.54 metros,
Peso: 500 toneladas.
Parque dos cervos sagrados

Os cervos (ou veados) são considerados mensageiros dos deuses.
Neste parque, eles são muito bem tratados e são geralmente mansos, mas reparem na placa de advertência.
Posso não ler kanji, mas entendo que não se deve molestá-los, ou tentar segurar um filhote.
Este senhor na foto acima, vende biscoitos para os turistas alimentarem os veadinhos.
Uma placa adverte que não se deve comer dos biscoito dos veados, com o risco de você ser castigados pelos deuses, se tornando um deles.



Do parque vemos a entrada do templo Todaiji ao fundo.
Nara
Pela manhã, seguimos de ônibus rumo a cidade de Nara, na Planície de Yamato, fundada no ano 710, conhecida como Heijo-kyo (Cidade da Paz), foi a primeira capital do Japão, de 710 até 794.








