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segunda-feira, 14 de julho de 2008

Nagasaki à tarde

Evitei o passeio ao Museu da Paz de Nagasaki.

Fiquei sabendo pela guia, que a cidade não era o alvo planejado, para o segundo bombardeio atômico, 3 dias após Hiroshima.
Me disse que, por conta do mau tempo, o verdadeiro alvo, uma cidade industrializada próxima, foi poupada e, como o avião não podia voltar com a bomba, decidiram largar sobre Nagasaki.

A cidade acabou não sofrendo uma destruição tão intensa, pois diferente de Hiroshima que é plana, Nagasaki tem muitas montanhas, o que contribuiu para amenizar a terrível explosão.



Quando o sol desapareceu atrás dos prédios, deixei o hotel (Holiday Inn Nagasaki ) e fui procurar um lugar para jantar e aproveitar para conhecer os arredores, principalmente o bairro chinês.

Toda cidade japonesa tem um bairro chinês e este não diferente dos outros que vi, era apinhado de lojinhas, a maioria esmagadora com produtos de quinta categoria, baratos mas duvidosos, como os restaurantes.

Tudo me pareceu uma armadilha para turista desavisado.

Resolvi passar num combini Family Mart e me abastecer de sanduíches, um vidro de mostarda (picante, grossa e com sementes), cerveja Kirin e bastante água, e voltar para meu quarto no hotel.

Comerciais de televisão, tarento e colesterol

O titulo de comercial mais URGH que assisti na minha vida vai para o Japão.
Um tipo de creme para aliviar tensão muscular, Mamma Tiger, uma coroa japonesa nua, apenas enrolada em toalha de banho, montada em um tigre (de verdade), se bezuntando com a tal pomada e fazendo cara de gozo. Cruzes!


Aliais, a mídia japonesa está repleta de personalidades-relâmpago, como as nossas celebridades instantâneas, que alimentam e são alimentadas pelo meio televisivo principalmente.
São chamadas de ‘tarento’ (do inglês talent) e são facilmente reconhecíveis pela fragilidade do suposto talento. É o candidato a ator, a mocinha bonita que segura o guarda-sol nas corridas de automóveis (Race Queen), etc.


Colesterol.
Uma palavra conhecida nossa e que causa sensação atualmente no Japão.
Parece que só agora os japoneses (que são apaixonados por ovos) estão descobrindo os malefícios (?) da alimentação exagerada de ovos.
É um tal de maionese contra colesterol, margarina contra colesterol, óleo sem colesterol, pílula contra colesterol.
É verdade que com a mudança gradativa dos hábitos alimentares, os japoneses passaram a sofrer com doenças, como diabetes e pressão alta, que seus avôs e avós não conheceram.
A famosa e bem divulgada alimentação saudável japonesa vem se tornando mais uma lenda.
Peixes e verduras estão cada vez mais distantes da mesa do japonês, inclusive o tradicional arroz, aos poucos vem dando lugar ao macarrão.

Enquanto isso, o Coronel do comercial do Kentucky Fried Chicken empurra um balde enorme de carne de frango BONELESS no microondas.

Batakusai


Durante séculos, os japoneses não comeram nenhum derivado do leite.

Por isso, quando deixaram de ser um país fechado, no século XIX, popularizou-se a expressão 'batakusai', para referir-se ao que era ocidental, ou imitava o Ocidente.

Quer dizer "fedendo a manteiga".

Irashaimase!

Basta botar o pé dentro de uma loja e você irá ouvir, uníssono, alto, dito por vários funcionários ao mesmo tempo.

IRASHAIMASE !!!

Significa 'bem-vindo', mas segundo um conhecido meu, o verdadeiro sentido é:

‘Bem vindo ao nosso estabelecimento forasteiro constrangido que não entende nossos hábitos e que está em pânico por não saber o que fazer.’

É a melhor definição que conheço!

Kombiniensu sutoa ou Kombini (Loja de conveniência).


São a versão moderna dos antigos mercadinhos.
Praticamente todos parecem pertencer a grandes redes, os AM PM , Family Mart, Seven Eleven, da vida. São fáceis de se encontrar, com produtos de boa qualidade (inclusive frescos), estão habituados a atender estrangeiros e funcionam 24 horas.

Dá pra comprar desde revistas e jornais, uma refeição quente, até produtos de higiene, além de normalmente possuírem caixa de banco (ATM, Visa) e fazer cópia de documentos e serviços de Internet.

Yusuzumi !

Quer dizer 'aproveitando o fim de tarde', ou algo assim.

A prática do yusuzumi, típica do verão, começa por tirar da cabeça, todos os fatos ocorridos durante o dia até então.
Como? Tomando um banho de imersão (quente) seguido por um banho frio rápido, vestir um yukata (quimono leve de algodão) e se refrescar na brisa delicada de um leque com aroma de pinho.

Uma vez que esteja com a mente e o corpo 'limpos', o próximo passo é a contemplação.

Sentar-se ao jardim e prestar atenção àquelas coisinhas que são caracteristicas da estação, o cantar dos pássaros, o balé dos insetos, os risos das crianças, um sino ou o rumorinho de um riacho.

Relaxar por completo, esquecendo do mundo, enquanto o desconforto do dia quente desaparece com o esticar-se das sombras.

Ahhhhhhhhhh, então é por isso que todos os japoneses desapareceram e estou eu aqui, junto com estes chineses, suando em bicas, na rua.

Estão todos fazendo seu yusuzumi em casa, no ar condicionado...

Bondes de Nagasaki e meu 'mapinha'



Futon ao sol


Fiação



Sempre me espantei com a maçaroca da rede aérea nas cidades japonesas.
Parece que ao longo do tempo, as novas se sobrepõe as antigas, sem que haja um cuidado de padrões e o mesmo se aplica a iluminação de rua.
Um conhecido meu que morou em Quioto, disse que isso se deve a falta de uma unificação de serviços e procedimentos. Segundo ele, em alguns lugares é possível contratar uma empresa particular para instalar, digamos, sua energia, independente da rede já existente.
Não sei se é correto, mas explicaria o caos.

Bueiros de Nagasaki


Pérolas aos bobos

Na loja, por 500 ienes você podia escolher uma ostra fechada no tanque.
'Se tiver uma pérola dentro, ela é sua', era a propaganda.

Depois eu soube que por 500 ienes (+- 5 dólares), dava para comprar um punhado de pérolas... espertos estes nagazaquianos!

Bondes e Holanda saka (ladeira da Holanda)




Comprei um boné para proteger-me do sol inclemente. Grande aquisição!
Ao invés de visitar a igreja católica Oura , preferi passear sozinho.


Nagasaki é agradavelmente familiar para nós, em certo instante você poderia jurar estar em alguma rua do Brasil ou de Portugal, pela arquitetura local ser a que estamos habituados a ver.


Passeando encontrei algumas casas bem interessantes, com detalhes art-noveau e um clima bem diferente, que como disse, fazia esquecer por minutos que era Japão.


Quando o calor apertou, me refugiei numa loja de ‘castelas’, como é chamado o pão-de-ló local. Consegui um sorvete de casquinha e logo voltei para o ônibus, para assistir basebal na teve com o motorista, um torcedor fanático dos Giants.

Gostei de Nagasaki, apesar do calor.

Me disseram que tem muito em comum com a cidade irmã, Santos, no litoral paulista.
Há inclusive uma rua com o nome Santos, onde perto dali paramos numa loja de venda de pérolas, um dos produtos locais mais apreciados.

Nagasaki

Talvez o mais famoso porto japonês, Nagasaki foi por mais de 200 anos, a única porta de entrada para o estrangeiro, já que todo o comércio era restrito a ilha de Dejima, na Baía de Nagasaki, em 1635.

Apenas holandeses e chineses tinham permissão de realizar negócios.
Foram dois séculos em que o Xogunato impôs o isolamento da cultura do restante do mundo, até 1854.
Apesar de Ingleses, Holandeses e Portugueses já terem se instalado no Japão (e trazido para o Japão o catolicismo), a crescente xenofobia Tokugawa, ocasionou a conseqüente perseguição aos Cristãos.
O Cristianismo foi oficialmente banido do Japão no ano de 1537 pelo Xogum Toyotomi Hideyoshi que temia que, através da prática, pudessem ocorrer o enfraquecimento do poder do estado, influenciado pelo exterior.

A Igreja Oura (templo católico mais antigo do Japão) relembra os 26 mártires cristãos (japoneses e estrangeiros) crucificados no monte Nishizaka.

Mapa de Nagasaki

De Hiroshima para Nagasaki

No dia seguinte fomos à pé para a estação de trem, bem próxima do hotel New Hiroden.
A viagem de 195 km até Nagasaki leva em pouco mais de 1 hora.

Antes de Hakata, o Shinkansen passa por um túnel submarino, que liga a ilhas Honshu à ilha Kyushu, onde fica a cidade de Nagasaki.
Na baldeação na mesma estação em Hakata, pegamos o expresso para Nagasaki, que mesmo não sendo um trem bala, tem a velocidade média de 96 Km/h.

No caminho, muitos arrozais, de todos os lados da estrada.


Era interessante ver as casas cercadas pelas plantações, ilhadas naquele mar verde. Segundo me disseram, nestas casas, na verdade várias casas agrupadas em um núcleo familiar, moram pai, mãe, avôs, avós, tios, filhos, todos trabalhando na plantação ou nos negócios gerados por ela, como as pequenas usinas de tratamento próximas dali.


Não era difícil encontrar pequenos tratores, pouco maiores que motocicletas, estacionados junto com os carros.



Na segunda parte da viagem vê-se o litoral, o pacífico cinzento, a baia de Nagasaki, trabalhadores colhendo mariscos, muitos barcos atolados na lama da maré baixa.